O ÚLTIMO DUQUE DE CAXIAS


Às vezes a emoção perde o sentido e as palavras ganham sua relevância no devido espaço, assim, ao piscar do olho tudo parece ser nu e cru. Pior para Lôco John e suas confusas ilusões.
Naquela noite tudo podia ser visto: as estrelas cadentes, que riscavam o céu levando os sonhos perdidos, o maestro, que regia para dois ou três, e quatro ou cinco lhe ouviam presos no tempo, a selva, que não tinha leão, só coelho... Todas as proezas que eram para si um aviso gritante: Doses destiladas afogam o amor!
E foi com esse pensamento torto que seu andar sóbrio cruzou a avenida, sem dinheiro, sem rumo. Ele não pensou, simplesmente foi e decidiu viver isso. Ali, bem no meio do asfalto, preferiu deitar seus 60 anos para ter um ataque epilético e conscientemente apagou os sentidos. Com perfeição agonizou suas dores, lhe faltou ar, a língua pagou, e acreditem... Ele até babou!
Ao redor, as pessoas aplaudiram, os carros desviavam para seus rumos lhe banhando de luzes. E todos puderam vê-lo tendo de ir em vão... Atiraram moedas. Um jogou uma flor amarela, outro tropeçou em sua perna, a menina de vestido branco tirou dele uma caneta vermelha do bolso e um rato mordeu-lhe o dedo.
Acordou no espanto, levantou. Não lembrava mais o porquê e nem seu nome. Apanhava o que era de agrado quando percebeu um papel tímido que escorregou do outro bolso: "Lôco Jonh, vá beber para esquecer seus amores". E foi!

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