VITÓRIA CORTEZ


          
- Posso sentar?
- Fique à vontade.          
- É o senhor Vitório Maltez?          
- Sim. Me chame de Victor, apenas.          
- Tudo bem, Victor. Sou Vitória Cortez.          
- Posso chamá-la de Juliana?          
- Claro.          
- Juliana, estava agora a pouco lembrando daquela vez que fomos à praia. Ficamos horas tentando assar aquele peixe que pescamos. Parecíamos dois adolescentes perdidos na floresta e tentando sobreviver.          
- Amanhecemos deitados na areia, rindo e cantando para as estrelas. Faz quanto tempo mesmo?          
- Hoje está fazendo 100 anos, mas parece que foi ontem.          
- É verdade.          
- Fomos festejar nosso aniversário de namoro.          
- Aposto que foi nesse dia que ficamos noivos.          
- Sim, mas nunca casamos.
- Ainda podemos nos adequar, Felipe.
- Felipe? Vitório!
- Posso chamar Felipe?
-Tudo bem.
- Sua família sempre insistira que nossa união não era um resquício rebelde da natureza humana.
- Mas sabíamos que não era.
- Não?
- Talvez...
- Pensei que tivesse certeza. Sua mãe me ligou faz uns meses e me pediu desculpas. Eu perdoei.
- Minha mãe morreu faz três anos.
- Sua irmã, digo.
- Meu irmão, não?
- Isso. Seu irmão me ligou e se desculpou pela indiferença que sofri de sua família naqueles anos.
- Olívia, tudo isso ficou no passado, vamos reconstruir nossa história. Tínhamos planos de visitar a Europa. Ver as identidades que não foram apagadas pelo tempo ou pelo homem. Gostaria tanto de visitar a Acrópole de Atenas ou o Fórum Romano.
- Quero conhecer as cachoeiras de Bonito. Sonhava ter ali uma casinha de pau e renda para esperar a velhice com você. Ouvindo os pássaros das suas canções. Recitou para mim um verso naquele dia na praia: “Ainda bem que ainda existem pássaros livres e felizes no céu”. Lembra George?
- Sim, e me dissera: "Ainda bem que no chão existe você para percebê-los com sua vista felina e prendê-los numa melodia para nós."
- Aprendeu a tocar violão?
- Aprendi, mas não toco. Descobri que é o som a natureza que me inspira, desperta minha alegria pelo que não sou. Sentiu saudade de mim, Letícia?
- Tem gente que não sabe dizer quando sente saudade, retribuir um carinho, dedicar uma atenção ou cuidar do outro.
- Porque fala isso? Refere-se a mim? Não tenho medo de ser mal interpretado, se eu te disser que sentia saudade. Teria se fingisse sentir uma.
- Está tudo bem, amigo? Desculpe perguntar, mas estava passando e percebi que falava sozinho - perguntou uma mulher que cruzou o caminho.
- Não precisa se incomodar, estou bem.
- Posso sentar e fazer companhia? Estava apenas de passagem, mas já não lembro para onde eu ia.
- Obrigado, me chamo Vitório Maltez.
- Prazer, sou Vitória Cortez. Sobre o que falava quando o interrompi?
- Sobre boas saudades.
- Então deixe-me participar. Mas porque fala de felicidade sem sorrir?
- Mesmo quando alguém nos tira o sorriso do rosto, Mônica, é preciso seguir em frente e saber perdê-lo. E nem poderia sustentar uma expressão apenas por orgulho. Vou ser honesto com você e permitir o reflexo do esquecimento.
- Victor, é bom que as pessoas saibam do que são capazes com as próprias atitudes. Mas o riso sempre volta e a alegria também.
- Me chame de Felipe, por favor. A oportunidade de aprendizado entre as pessoas não floresce todo dia.
- E o que a tristeza ensina?
- A ser feliz, claro!
- Você já aprendeu isso com ela?
- Ainda não, nem os pássaros conseguem mais sorrir aqui.
- O que faz das aves joviais e tranquilas pode não fazer a ti.
- E o que a faz pensar que a alegria só é jovem e viril?
- Tudo que é novo nasce assim. Até o tempo passa para a felicidade e faz dela uma velha lembrança. As frutas maduras uma hora caem das árvores e os pássaros precisarão colocar os pés no chão para comê-las.
- Sabe Vitória...
- Mônica!
- Mônica, toda idade tem sua beleza. Foi você que não percebeu que estou sorrindo porque as rugas caíram maduras em minha face. Mas meus olhos não lhe dizem nada?
- Nossa! Não tinha percebido. Ficara cego de um olho?
- Não!
- Claro que sim, André. Há um buraco escuro e profundo no seu olho, parece o azul profundo do oceano. Precisa ir a um médico.
- Vou marcar uma consulta.
- Lembra quando éramos crianças? Escrevia-me cartas e mais cartas de amor. Ainda tenho todas guardadas.
- Também guardei o cartão de natal que deu quando éramos meninos. Dizia: “Boas Festas, Letícia” e só.
- Conhece esta árvore Victor?
- É o Baobá centenário.
- Consegue ler a frase que está escrita naquela placa?
- Não, estou mesmo com a vista turva.
- Aquelas poucas palavras contam toda a história desse lugar. Tomas Pompeu de Sousa plantou esse Baobá em 1910. Sabe quantos litros ela pode armazenar pelo corpo?
- Dois jovens deram-lhe a pouco uma garrafa de água. Pelo menos um copo ela tem.
- São mais de 120 mil litros de sangue que um dia correu dentro de nós. Nem tudo que sentimos é o que  dizemos. Nem tudo que somos vem exatamente só de nós. Desculpe, como se chama mesmo?
 - Eu não tenho nome, senhora. Apenas existi.
- Não sou senhora, desculpe novamente. Não tenho história, amigo. Mas atendo por Vitória Cortez.
- Vamos sentar aqui? – falou um garoto para uma amiga ao se aproximarem daquele banco verde no passeio público onde o velho casal repousava – Está vazio.
- Vamos sim – respondeu sorridente a garota. – Ouviu isso? São pássaros cantando?
- São os fantasmas que vagam perdidos.
- Fantasmas? – quis saber a menina.
- Dizem que essa praça é mal assombrada, não sabia?
- Então vamos embora, por favor. Deve ser por isso que ninguém vem mais para cá.

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